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Por Emmy & Pauline Dala Senta contato@hartn.me

A Desconstrução da Arte

O conceito do que é (ou não é) Arte é muito questionado mesmo na atualidade, gerando grandes discussões que percorrem entre justificativas mais “objetivas” e outras mais “subjetivas”. Para alguns tudo, completamente tudo pode ser Arte. Para outros há certos critérios que podem definir o que é ou não é Arte através de um olhar mais crítico.

Mas a pergunta é: o que levou a essa “desconstrução artística”? A resposta para essa pergunta não é simples e nem breve.    

[Nota: Esse texto não tem como objetivo dizer ao leitor que ele deva apenas admirar as "artes clássicas", mesmo que mostre o ponto de vista da autora. Porém, propõe ao leitor que tire suas conclusões através de fatos e fontes (de leitura simples) - encontradas no final da página -  que deram origem a este estudo e texto. Boa leitura!]
Três Painéis em Branco (1951) – Robert Rauschenberg

A mudança da humanidade é algo constante na história, o que refletirá muitas vezes na Arte. Entretanto, nada foi tão abrupto quanto aos movimentos vanguardistas do início do século XX. 

O mundo moderno já dava seus sinais no século XIX. O surgimentos de diversas tecnologias, além da industrialização e das revoluções europeias, resultaram em mudanças das condições sociais da população.

No campo das artes, os artistas românticos buscam valorizar o estilo de cada artista, além de aderir ao sentimentalismo, a imaginação, ao nacionalismo e a natureza. Ao contrário dos vanguardistas do século seguinte, estes artistas não negaram por completo a arte acadêmica e seus cânones, tão pouco seus mestres com seus ensinamentos. O que existia era uma crítica e uma tentativa de ter uma maior flexibilidade e liberdade diante da rigidez da academia. Um artista importante que se rebelou contra essa inflexibilidade foi o pintor Gustav Coubert (1819-1877), pioneiro e líder do Realismo francês, movimento que era contra um imaginário pictórico e buscava representar apenas “aquilo que via”, como as cenas de gênero.

O Desespero (ou Autorretrato) – Gustav Coubert, 1853-55

Outra mudança que o século XIX trouxe é o surgimento da fotografia. Os artistas tiveram que se adaptar a esta nova tecnologia, mesmo que muitos conseguissem alcançar certo grau de perfeição, ou até mesmo realismo, nada se comparava a esta novidade tecnológica capaz de capturar o momento com tamanho realismo. Um exemplo de artistas que se apropriaram da fotografia para fazer arte foi Henry Peach Robson (1830-1901), que reproduzia imagens unindo arte e natureza. Em sua técnica, podemos encontrar uma estética muito semelhante as encontradas em uma pintura. Outros artistas, que não recorreram a este caminho, perceberam que era necessário inovar-se. Assim, começam a se afastar novamente das limitações e da rigidez acadêmica, buscando retratar temas que eram pouco valorizados e também experimentando (ou criando) novas técnicas artísticas.

Dia dos Namorados – Fotografia de Henry P. Robson, 1885.

Com o decorrer do tempo, diversos artistas passam a fazer experimentações e pesquisas artísticas, como por exemplo, as pinturas Impressionistas de Claude Monet (1840-1926) que, abandona o ateliê e começa a pintar sob luz natural, sendo também um crítico da rigidez da academia. Consequentemente, em meados de 1880,  surgem os Pós-Impressionistas, que estavam insatisfeitos com as “limitações” do movimento anterior e começam a produzir uma arte inovadora. Outros movimentos e estilos artísticos e culturais surgem na mesma época, como a Belle Époque (que dura até 1914) e também teremos os experimentos denominados de pappier collé de Picasso no início do século XX, que darão origem a um novo tipo de escultura.

A Arte Moderna inicia-se no final do século XIX e dura até meados do século XX. Aqui temos duas observações: a primeira, refere-se a Arte Moderna no Brasil, que é marcada pela Semana de 1922 e demonstra como os movimentos artísticos podem possuir uma pequena diferença de “lugar para lugar”. Porém, muitos dos pintores brasileiros que pertenciam a Academia Imperial de Belas Artes (AIBA) foram influenciados por (novos) movimentos que já ocorriam na Europa, afinal, muitos eram bolsistas (do famoso “bolsinho do imperador”) e tinham como destino estudar na França ou na Itália. Assim, encontramos uma visão modernista, não tão radical como na semana de 1922, em artistas brasileiros já no final do século XIX. A segunda observação refere-se ao termo moderno ou mundo moderno que é amplamente discutido por pesquisadores em diversas áreas quanto sua “datação”. Para não entrar em uma explicação complexa quanto ao termo, aqui falaremos do período referente à Arte Moderna.

Na virada do século XIX para o século XX, as pessoas estavam desfrutando os benefícios das novidades modernas através das tecnologias que vieram para facilitar suas vidas em muitos aspectos. A Belle Époque foi caracterizada por ser uma época do divertimento, uma era de ouro da beleza e da paz entre as nações. Infelizmente, aqueles que estavam aproveitando essa “bela época” na Europa não esperavam que esses dias gloriosos chegariam ao fim com o início de um dos conflitos mais sangrentos e cruéis da história e que mudaria a humanidade como nunca antes: a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

A tecnologia não se limitou em apenas facilitar o dia a dia das pessoas, mas também em fabricar máquinas de guerra que até então eram desconhecidas. Estar nas trincheiras não era tarefa fácil e muitos daqueles jovens que partiram para a guerra nunca mais voltariam. Enquanto os homens estavam no campo de batalha, as mulheres estavam nas cidades ou no campo ocupando os lugares que antes os pertenciam. A sociedade e o mundo mudou de tal forma que para explicar o impacto dessa Grande Guerra na história da humanidade caberia aqui escrever outro texto apenas sobre ela. O mundo nunca mais seria o mesmo.

Uma das consequenciais da Primeira Guerra é seu rompimento com o passado, o que contribuiu para mudanças em amplos aspectos da sociedade, desde a política até as artes.

Todo o rastro de morte e destruição causado pelo conflito, marcará uma geração que ficará conhecida como Geração Perdida, um grupo de adolescentes e jovens que sobreviveram ao conflito e que viveram sua vida adulta nos Loucos Anos 20 até a Grande Depressão. Eram jovens que tinham que lidar com a destruição, perda e a falta de perspectiva trazida pela guerra. Assim, eles consideravam que os grandes culpados pelo início deste terrível conflito eram os burgueses (ricos, monarcas, etc) e desta forma tudo que se referia a burguesia deveria ser esquecido. Muito dos valores tradicionais serão ignorados por estes jovens que viveram os anos 20 de forma livre e sem limites, seja na forma de se vestir ou de agir, até mesmo na forma de se fazer arte. O que mais importava era quebrar todas as regras.

    A Arte também rompe com o passado, e os movimentos artísticos que já haviam começado antes mesmo do final da Primeira Guerra Mundial ganham força e também inovam-se para esse “novo mundo”. Assim surgem as Vanguardas Europeias e seus movimentos (Futurismo, Surrealismo, Cubismo e Dadaísmo), cada um com sua característica e peculiaridade. Através das obras produzidas por estes artistas podemos observar que existe uma estreita relação com ideais socialistas, comunistas, fascistas, anarquistas e niilistas, ou seja, a arte para os vanguardistas também passa a ser um projeto político-ideológico, não somente de liberdade criativa.  

A academia, que já era criticada pelos artistas por sua rigidez metodológica, é ignorada completamente e as discussões sobre o belo e o que é arte começam a ser questionadas ou quebradas. Não somente os conceitos seriam mudados, mas todo o legado deixado pelas Belas Artes e seus mestres não eram mais apropriados para o mundo moderno: as técnicas, os estudos e até os tradicionais materiais artísticos não deveriam ser mais utilizados. A Arte de Vanguarda toma uma atitude de “arte do contra”.

O Dadaísmo surge em Zurique no ano de 1916, sendo o um dos movimentos de vanguarda mais radical e anarquista. Sua “filosofia” é criticar tudo (a guerra, a política nacionalista, a religião, os padrões preestabelecidos, etc), onde sua anti-arte busca ser ilógica e considera que a destruição também poderia ser criação. Estes artistas buscavam produzir poesias sem sentido, leituras chocante, fazer ruídos sonoros e utilizavam objetos de forma brutal e sarcástica, sempre com materiais baratos, tirados do lixo ou do cotidiano. 

O artista que abraçará esse movimento e que marcará o mundo das artes plásticas para sempre será Marcel Duchamp (1887-1968). Em 1917 uma de suas “obras” causará grande alvoroço no cenário artístico: um mictório em exposição, intitulado A Fonte. Essa apropriação de objetos do cotidiano, transformando-os em objetos artísticos será chamada de Ready-made (termo criado por ele) e trazia consigo uma novidade: agora, cabia ao artista decidir o que era e o que não era obra de arte e o ato de fazer arte torna-se mais importante do que o resultado final do objeto, este, podendo ser criado ou apropriado, como é o caso do mictório de Duchamp. Segundo ele: “A arte está na ideia e não no objeto”.

Marcel Duchamp com um de seus Ready-made
A Fonte - Duchamp
“A Fonte” – Marcel Duchamp

Com o tempo, a própria Arte Moderna sofre seu desgaste, principalmente no que se diz respeito aos seus milhares de experimentos artísticos, onde essa dificuldade em compreendê-la faz com que o público se afaste dela. Assim, surgem os artistas contemporâneos, discípulos de Duchamp, que continuam com as experimentações artísticas, a criatividade sem limites e apropriação de objetos para expressarem todos seus sentimentos por meio de problematizações da sociedade e do mundo. Mas, esse “novo movimento” não será linear e tomará diversas direções.  

Após o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, com uma Europa destruída pelo terrível conflito, o centro do mundo da Arte que antes era focado em Paris, é transferido para Nova York. A “nova capital do mundo” passa a ter, com o tempo, os mais importantes museus e galerias, além de um forte trabalho artístico e cultural nas universidades.

Com a expansão do capitalismo, muitos artistas se aproveitam para ganhar dinheiro através do consumismo e do sucesso da cultura do cinema, esse movimento artístico que fez muito sucesso nos anos 60 foi chamado de Pop Art. A Arte continua a ser utilizada como forma de propaganda e manipulação das massas, influenciando os jovens dessa geração e abrindo caminho para propagar ideologias. Temas como feminismo, sexualidade, liberdade, crítica ao capitalismo, entre outras problematizações passam a ser algo comumente discutido no meio artístico.

Na segunda metade do século XX, a arte será focada na expressão pessoal, no deboche, no chocar, na ofensa (e no vulgar) e principalmente em sua falta de criatividade e técnica, pois é notável sua qualidade inferior no que se diz respeito às produções artísticas de toda história e até mesmo na formação desconstruída do que é ser um artista. Quando não estão se apropriando de obras de arte de outros artistas, estão criando pinturas em branco ou fazendo esculturas com chapas lisas de metal.

Surgem também as Performances, Happenings e Body Art mostrando que realmente não há limites (e nem sanidade) para se fazer arte. O artista faz de seu corpo uma “arte”, ou seja, ele passa a ser objetos que podem ser apenas assistido ou até mesmo manuseado pelo espectador. É comum encontrar qualquer tipo de performance inusitada ou sem sentido, acompanhada sempre de alguma defesa ideológica ou crítica social. O importante é fazer disso um teatro no qual o artista pretende normalizar à sociedade qualquer coisa que ele considere um tabu. Exemplos de “grandes e magníficas obras artísticas” que temos dessas manifestações são: Yoko Ono gritando no meio de uma sala de galeria, pessoas mergulhando suas cabeças no molho de tomate, um homem segurando uma lebre morta ou até mesmo um artista que matou um cachorro de fome em nome da arte. Aqui, toda bizarrice é livre, afinal, tudo é arte!

Uma Happening de Joseph Beuys

O percurso dessa desconstrução da arte é complexo e resultante de muitos fatores, sejam por momentos históricos como consequência da mudança da sociedade e de seu meio. As coisas aconteceram porque tinham que acontecer. Muitos estudiosos acreditam que o artista clássico chegou ao seu limite de perfeição e que a arte não poderia ir mais além do que já tinha ido, pois já havia alcançado o ápice da perfeição. Outros já creem que as artes plásticas já estão defasadas e que o artista contemporâneo passou a copiar até os modernistas por falta de criatividade. Desta forma, o que resta para eles é chocar, ofender e vender seu produto, fruto de um sentimento egocêntrico, em busca de se destacar no mercado e obter um interesse comercial de algum comprador milionário.

Hoje, não faz mais sentido um artista agir como um vanguardista, pois tudo o que eles defenderam um dia era fruto da época que viveram, ainda mais se tratando das consequências da Grande Guerra. Foi a forma que encontraram para responder a toda destruição e mudanças políticas, sociais, filosóficas, economias e culturais que presenciaram.

    O artista, em toda História, buscou se reinventar mesmo com os cânones artísticos, sendo capaz de criar coisas belas e importantes para a humanidade através dos altos padrões de excelência que deveria alcançar. Antes, a Arte era um escape ou algo que nos fazia lembrar das belezas do mundo (e não estou falando apenas de estética), porém, hoje ela se resume a simples ferramenta ideológica que transforma o “feio em bonito”, que choca e ofende.

     Foi-se o tempo que o artista costumava deixar um legado cultural riquíssimo para a sociedade e por isso é comum encontrar muitos artistas que dizem sofrer censura, ou que são incompreendidos, quando escutam alguma crítica dura da sociedade ou do público. Isso acontece porque ele está tão preocupado com o seu eu, que acredita cegamente que todos estão interessados em compreender seus sentimentos mais absurdos ou íntimos. Ele esquece que o público, assim como quem vai a um concerto musical ou a um show, quer deixar um pouco de lado o caos do mundo, se distrair e enriquecer-se espiritualmente, como se fosse renovar suas energias.

Pode ser que daqui 100 anos muitas dessas criações estejam esquecidas ou nem existam mais. Diferente das obras de arte dos grandes mestres do passado, que sempre serão eternas, pois como dizia Roger Scruton:

“Sem uma procura consciente da beleza, arriscamo-nos a cair num mundo de prazeres que causam dependência e na banalização dos atos de dessacralização, é um mundo em que já não se percebe bem por que vale a pena a vida humana.”.


Referências:

  1. ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural. Happening. Acesso em: 05 de Julho de 2020.
  2. ESTILOS Arquitetônicos. Por que a arte moderna é tão ruim? Robert Florczac. Disponível em: < https://www.estilosarquitetonicos.com.br/por-que-a-arte-moderna-e-tao-ruim-robert-florczak/ > . Acesso em: 10 de Abril de 2020. 
  3. MARTINS, T. “Da arte sublime à arte degenerada”; Senso Incomum. Acesso em : 10 de Abril de 2020.
  4. NONELL, J. B. Atlas da História da Arte. 2.ed. Rio de Janeiro: Lial, 1977
  5. PINTO, Tales dos Santos. Arte e História no estudo das sociedades“; Brasil Escola. Acesso em 15 de Abril de 2020.
  6. PEREIRA, Sonia Gomes. Arte brasileira no século XIX. Projeto Pedagógico. Editora
    C/Arte. Belo Horizonte, 2008
  7. THE HISTORY CHANNEL. A Primeira Guerra Mundial, o fim de uma era. Youtube. Acesso em: 08 de Abril de 2020.

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